Precisamos de alguém que faça a nossa comida, e nos diga afinal como viver

Em tempos de quarentena a vida tornou-se rapidamente em um enigma. Nunca é fácil ver os outros, iguais a nós, nossa amada espécie, morrer em números ditados pelos jornais. No ato de ser sujeitados a permanecer dentro dos quadrados decorados de nossas casas, “viver” ganhou um novo significado.

Um vírus, coisa pequenininha essa, mostrou que não tínhamos em momento algum o controle de qualquer coisa, mesmo que acreditássemos nisso cruzando os dedos e dando três pulinhos, acendendo velas e incensos, comprando cristais e pedras, dando nosso dinheiro pra sorte.

Porque se o número de mortos aumenta nos jornais pensamos “que pena!”, “Que coisa triste!”, “mas se bem que já estava mesmo nos anos finais de sua vida”. Pensaremos isso enquanto vamos dormir e a luz apaga e ninguém está vendo. Não pensaremos? Diremos que não é claro, “que coisa mais absurda de se dizer”. Mas e o mal que há em nós? No fim não importará. Continuaremos vivos. Nessa coisa de viver. Acordaremos e viveremos dentro de nossos quadrados pintados a moda Pinterest e respiraremos a vitória de estarmos ao menos vivos. Ainda que isso signifique que o Presidente não acredita nisso tudo. E afinal de contas, quem é mesmo o Presidente?

Nos perguntaremos todas essas coisas mastigando um lanche feito pela nossa empregada. Aqueles que não a tiverem imaginarão o dia que poderão ter uma. E minto? Almejarão por alguém que possam comandar. Não pensarão nas condições de trabalho, nos direitos humanos, nas leis trabalhistas e merda nenhuma de Governo. Chegará um tempo, se já não chegou, que precisaremos que façam a nossa comida e escolham o nosso Presidente.

Porque não saberemos como fazer nossa própria comida, não saberemos escolher o presidente, não saberemos nada, nem de política, nem de humanidade, nem de respeito, educação e bem, no final das contas, não saberemos nada sobre viver. Talvez começaremos a consumir cada vez mais conteúdos da internet, vídeos, perfis de youtubers, canais de vídeos, a vida de alguém que eu conheça e que é legal, o que ela veste, o que ela come? Onde ela vive? Como é a casa daquela pessoa?

E faremos então o que todos estão fazendo. Por exemplo, eu tenho certeza que nesse exato momento em que esse respeitoso leitor está lendo este eminente texto, estará muito provavelmente planejando em como irá até o supermercado para aproveitar e comprar mais uns quilos de arroz, de leite e carne, e ovos, e carne e feijões e óleo e eu não sei porque: o famigerado papel higiênico. Caso isso se comprove, caro leitor, não faça isso. Sentiremos o impulso de fazer o mesmo que o outro está fazendo, mas será isso a resposta para as nossas soluções?

Precisamos conhecer a nossa vida, como conhecer a nossa comida. O que comemos, de onde vem, fui eu que fiz esse bolo? Fui eu que colhi esta alface? E fazermos perguntas fundamentais para vivermos, afinal, nessa coisa que precisamos mesmo pensar: o coletivo. Mas será mesmo que a gente precisa que alguém nos diga como a gente deve viver? O tempo todo? O que devemos fazer durante a quarentena? Alguém que diga lá no fundo dos nossos fones de ouvido de marca: Vá ler. Será que não precisamos começar a fazer perguntas para nós mesmos? A lei da dúvida é uma dádiva de ser experimentada por nós, maravilhosos seres humanos pensantes.

Será que chegará o dia que enfim poderemos ter professores de filosofia exaltadamente estimados dentro do planejamento de ensino para todos? É aqui que começamos a perceber o quanto de pensamento filosófico nos falta para encarar os fatos dessa quarentena que se prolonga a nossa frente. De que não sabemos mesmo fazer as perguntas certas. O quanto, muito provavelmente, de nossa responsabilidade do que está rolando é de nós mesmos? Claro que vamos culpar uns e outros. Mas no final disso tudo continuaremos a não saber como fazer a nossa comida.

Continuaremos a não saber quem nós somos. E como viver.

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